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Amigos – Vinicius de Moraes

Escrito por Vila Olímpia em 28 de May de 2010

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências… A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam – ou talvez nunca vão saber – que são meus amigos!

Vinicius de Moraes

Uma Homenagem à nossa Egrégora!

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Boas Maneiras no Yôga – DeRose

Escrito por Vila Olímpia em 21 de May de 2010

Sutileza é sinônimo de boas maneiras

Extraído do livro Boas Maneiras no Yôga – DeRose

Onde há sutileza, em geral, há boa educação. Sutileza tem a ver com polimento, refinamento.

Sutileza na maneira de segurar uma xícara, um copo, um garfo. Sutileza na maneira de sentar-se no sofá sem se atirar nele ou de se virar na cama sem disturbar o parceiro que lá está. Sutileza na forma de tocar pessoas e objetos. Sutileza na forma de fechar o porta-malas do automóvel de um amigo.

Sutileza na hora de repor as coisas exatamente no lugar de onde as tiramos, na casa dos outros, por mais íntimos que sejam. Sutileza na hora de selecionar as amizades e as pessoas com quem vamos envolver-nos afetivamente. Sutileza na maneira de reclamar, na forma de fazer amor ou na forma de dizer uma verdade.

Não há nada mais agradável que poder dizer a alguém:

- Não sei se eu gostaria disso.

E o outro compreender que você não quer isso de maneira nenhuma, não insistir e não perguntar porquê. Já imaginou se, para obter esse resultado, você precisasse dizer:

- Olha aqui, ô cara. Eu não estou a fim, tá me entendendo? Vê se você se toca.

E, pior, se o espécimen de homo sapiens não compreendesse palavras e você precisasse apelar para a força física a fim de ser respeitado! Por exemplo, tendo que trancar à chave um aposento para que o humanóide entendesse que não é para entrar! Certa vez, tive uma secretária que não respeitava a porta fechada da minha sala. Tinha que estar chaveada ou ela irromperia pela minha intimidade adentro.

Creio que pela comparação com os opostos o conceito de sutileza e seu valor ficam mais claros, não é?

Sutileza é o assistente não deixar para fazer depois (“Deixa aí que depois eu faço.”) o que seu superior solicitar e, ainda por cima, esquecer-se e não fazer.

Sutileza é não pedir nada emprestado, mas, se pedir, devolver logo e em perfeito estado. É não mexer nos livros e demais objetos. É não colocar nada em cima da mesa de trabalho do outro, e lá deixar ficar, contribuindo para com a confusão ou para aumentar o stress.

Sutileza é ser delicado, atencioso, cuidadoso, suave, gentil. Ser sutil é esforçar-se para não fazer nada que possa desagradar os demais. É ser gato e não ser cão ao movimentar-se, ao pisar, ao esbarrar e ao tocar.

Ser sutil é absorver e assimilar uma educada indireta ao invés de comportar-se como um muro de pedra e rechaçar a crítica, devolvendo-a automaticamente para se defender.

A cidade de Canela, no Rio Grande do Sul, é bem fria no inverno. Certa vez, visitando uma amiga, fiquei dois dias hospedado em sua casa. Ela foi muito boa anfitriã, como os gaúchos costumam ser. Providenciou comidinhas gostosas, uma roupa de cama perfumada, toalhas fofinhas para o banho. Depois da ducha, perguntou elegantemente se estava tudo a contento. Sutilmente, informei-a de que a ducha do quarto de hóspedes não estava aquecendo e brinquei dizendo que não tinha importância porque banho frio no inverno constitui um excelente benefício para a circulação. Tínhamos intimidade para o gracejo. Qual não foi a minha perplexidade ao escutar sua resposta:

- É… mas eu também tive que tomar banho frio na sua casa*.

(* Porque não entendeu como funcionava o chuveiro com aquecedor a gás.)

Rimos muito do infortúnio recíproco e continuamos amigos. Mas carrego comigo até hoje a dúvida cruel: será que ela se melindrou? É atroz ter que preservar uma amizade à custa de caminhar sobre ovos. Uma coisa ela perdeu para sempre. Nunca mais vou contribuir com uma crítica construtiva, pois percebi que ela não a aceita. E nunca mais vou usar de sutilezas com ela.

Ser sutil é reconhecer um erro que lhe tenha sido apontado por outrem, até mesmo quando você discordar e achar que está com a razão. Tenho alguns amigos, excelentes pessoas, mas que estão o tempo todo na defensiva. Jamais escutam e jamais aceitam. Precisam justificar-se sempre.

Aliás, se formos analisar friamente, tão friamente quanto o meu banho, precisamos reconhecer uma definição psicanalítica que afirma: a neurose consiste em ter aprendido errado, é ter assimilado uma educação errada. Assim, podemos concluir, o mal-educado é um neurótico. Um exemplo é o comportamento observado em alguns extratos culturais que aprendem a “não levar desaforo para casa” e, em virtude disso, talvez levem para casa um olho roxo, uma inimizade para o resto da vida ou um processo criminal por agressão. Não se discute que tais pessoas aprenderam errado como viver.

Ser sutil é sinônimo de ser bem educado, mesmo quando a origem é humilde, ainda que nunca se tenha lido um livro de boas maneiras.

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